segunda-feira, 22 de março de 2010

VALEU A PENA

Sábado, 13:30, Piracicaba. E eu ainda sem decidir se iria ao jogo ou não. Estava no ônibus, começando as 2 horas de viagem até São Paulo, onde passaria a noite para, bem de manhã, fazer uma prova. Passei a semana toda tentando decidir se iria ou não ao jogo, afinal, são poucas as chances que tenho de ver o Palmeiras de perto, de ir ao Palestra. Queria muito, apesar da sensação de que deveria ficar descansando, ou até estudando, para a prova difícil e importante de domingo. Isso sem falar na correria, chegaria atrasada, talvez não conseguisse encontrar ninguém. Por outro lado, a paixão. Paixão é aquela coisa desgraçada que te faz realizar atos irracionais, estupidamente ridículos, e ainda se sentir bem e feliz porque, no fim das contas, você fez o correto, fez o que deveria, tendo a certeza de que nem tudo na vida deve ser movido pela razão. Sim, eu não deixaria de ir ao jogo. Jamais.



E foi então que começou a correria. Em 3:30 horas eu teria que ir de Piracicaba ao Terminal do Tietê, de ônibus (2:15, com trânsito mais ou menos), pegar o metrô e ir até a estação Praça da Árvore (meia hora de metrô, mais o tempo de comprar bilhetes e esperar), andar mais ou menos 1 km em lugar desconhecido procurando o hostel em que me hospedaria (15 minutos), acertar as coisas, tirar da mochila tudo aquilo que não posso levar ao estádio (no mínimo mais 15 minutos), voltar ao metrô e ir até a barra funda ( 15 minutos de caminhada mais 30 de metrô), caminhar até o Palestra (10 minutos), comprar ingresso (ai meu deus, todo mundo deixa o ingresso pra comprar na hora). Mas peraí, somando tudo, correndo e sem imprevisto levaria mais de 4 horas. Perderia todo o primeiro tempo. Resolução? Dentre outras coisas, é para isso que temos amigos, sempre nos ajudam a resolver o que não podemos fazer sozinhos. Enquanto resolvia o assunto do ingresso por SMS com a Mayara, em Minas, que por sua vez resolvia o assunto com o Rodrigo, esse sim no Palestra, consegui também uma forma de chegar logo ao estádio: Letícia, uma amiga que foi fazer a mesma prova, mas hospedada na casa de um amigo, me fez a bondade de levar em sua mochila 2 livros, 1 pasta com documentos, desodorante, sabonete, pasta de dente, creme para cabelo, hidratante, carregador de celular, pente, enfim, tudo aquilo que eu não poderia levar ao Palestra. Dessa forma, eu não precisaria ir até o albergue e economizaria 1 hora do pouco tempo que tinha. Usei e abusei da boa vontade de todos, mas os 3 compreenderam e ajudaram com aparente prazer, 3 palmeirenses como eu.



Ao chegar na Barra Funda, às 16:40, o dilema dos dilemas: tive que ficar parada, esperando a macacada passar em 2 ônibus, gritando feito loucos, ofendendo até minha avó. Eita nóis, são virgens, mas sabem ser ridículos tal qual outros virgens, aqueles, virgens da América. Foi então que eu, que não sou Forrest Gump, tampouco Armero Bolt, na verdade corro menos que o Diego Souza naqueles dias em que ele parece ter 2 kg de areia em cada chuteira, tive que correr. Deve ter sido uma cena linda, correndo desesperada, suada, com todo meu belo condicionamento físico, em meio a mais outros 20 palmeirenses tão loucos quanto eu. Cheguei a Matarazzo praticamente derretida, Rodrigo me esperando com o ingresso na mão, pisamos na arquibancada e a bola rolou, como se tivéssemos um cronômetro.



Não vou falar muito do jogo. Se você não o viu na hora, provavelmente já cansou de ver e ler sobre. Mas algumas considerações devem ser feitas. A marcação, como há um bom tempo, está ridícula, o que é revoltante porque temos caras capazes de marcar bem. Diego e Cleiton, que se movimentam bastante invertendo o posicionamento, não têm sido quase nada efetivos. Penso que Diego precisa ficar mais tempo próximo do ataque, enquanto Cleiton no meio indo buscar jogada, ou criando algo de bom. Isso exploraria as melhores qualidades dos dois bons jogadores, embora oscilantes. E eles se aproximam pouco, o que é ruim, já que são os mais entrosados e habilidosos do time. Quando se aproximam, algo bom geralmente acontece. O Palmeiras tem cobrado escanteios e faltas ridículas, deveriam ficar um dia inteiro treinando. Outra coisa é a falta de objetividade, falta arriscar logo a gol, falta entrosamento de Ewerthon com o time, falta (atenção ou capacidade?) de Armero e Robert para acompanhar jogadas, principalmente de Cleiton e Diego. Aliás, Robert não deveria sair tanto da área e é deprimente quando seu principal atacante tem um sério problema em finalizar. Por fim, embora haja mais problemas, aquela jogadinha de alguém pela esquerda (geralmente Armero ou um dos meias) conduzir a bola até o meio, depois virar o jogo para alguém na direita (geralmente Márcio Araújo ou algum dos meias), que corre até a linha de fundo e cruza, repetiu-se tantas vezes que eu pensei estar em meio a um ataque de dejá “vus”. Legal, interessante, deu pra notar que estão tentando parar de “cozinhar” a bola entre zagueiros e volantes, sem coragem de criar algo, mas isso matou a criatividade também. Acho legal buscar jogadas ensaiadas e fugir desse lenga lenga sem criação, mas é bom inovar e surpreender. O Palmeiras insistiu demais no cruzamento, como o próprio zago falou na coletiva, mas não se pode restringir um time a apenas uma jogada.



Ah, duas coisas que chamaram minha atenção: 1 – da série “coisas que você dificilmente verá na vida”, Armero salvando o Palmeiras duas vezes, acertando bicudas quando o adversário pressionava. 2 – da série “agora entendo”, Diego correndo loucamente na linha de fundo, para a bola não sair e não dar tiro de meta para a Ponte. Agora entendi o que ele quer dizer quando fala em “correr atrás da bola como se ela fosse um prato de comida”, faça isso mais vezes meu filho!



E foi isso. Gols ridículos. E a ponte conseguiu o que queria: o tempo quase todo na retranca até surgir oportunidade de matar o jogo. Confesso que já tinha jogado a minha toalha do Paulista 2010 há algum tempo, embora no fundo sempre haja a esperança sem sentido característica do torcedor. Desse modo, espero que o Palmeiras se acerte na Copa do Brasil e para o Brasileiro. Continuo achando que, embora ainda tenha muito a melhorar, apesar da derrota o time está melhor do que em jogos como contra o Sertãozinho (o Palmeiras venceu jogando mal pra caramba), Santo André... Em todo caso, se essa diretoria não começar a agir direito, continuarei pensando que o maior problema não vem da culpa de jogadores.



Naquela noite, enquanto procurava a Letícia para pegar minhas coisas e, enfim, me hospedar, imaginei que todas aquelas pessoas que me pararam na rua para comentar o jogo, pensaram que eu estava triste, ou com raiva. Porém, caminhando numa chuva daquelas “estilo São Paulo de ser”, eu não conseguia conter um sorriso tímido esboçado no rosto. Há mais de uma década eu nutri uma esperança, a esperança de realizar algo que foi um sonho na infância. Com o tempo fui vendo o Marcos envelhecer, perto de aposentar, e imaginava que acabaria passando a vida sem vê-lo defender um de seus pênaltis. Pensava que quando velha, ao falar de meu grande ídolo do futebol, eu não poderia relatar minha presença em algo que tanto o caracteriza. E agora não tenho mais esse medo. Vitórias e derrotas, para times bons ou piada pronta como o da Ponte Preta, irão ocorrer muitas e muitas vezes, como já ocorreram. E eu estarei aqui para ver. Mas o Marcos vai passar, e será logo. Naquele início de noite, com o Palmeiras perdendo e o jogo bem perto de acabar, Rodrigo me disse “Pênalti. Vamos embora”. Mas nem deu tempo de eu decidir se pedia a ele para ficar, ou se o acompanhava, já que estava me sentindo obrigada a fazer a vontade de alguém que me ajudou tanto a estar lá. Não deu tempo, já que em seguida ele completou “Não. Vamos ficar e ver o Marcos defender. Ao menos uma coisa de boa veremos hoje”. Esperamos, convictos, e ele não decepcionou. Aliás, que defesa segura. Foi um momento mágico, com o qual sonhei por grande parte da infância e toda a adolescência. Marcos defendendo um pênalti no Palestra, e eu no meio da torcida, feliz. Para muita gente isso não significa absolutamente nada, mas eu quase chorei, e eu jamais esquecerei o sorriso feliz do Rodrigo, que deve entender tudo o que eu senti. Valeu a pena a correria, o risco, me perder ao voltar, a chuva que tomei, passar o domingo todo com tênis molhado e fedido, ver o jogo todo mesmo que o Palmeiras tenha perdido e me feito sofrer. Valeu a pena ter seguido minha intuição de que eu deveria ir, de que aconteceria algo muito importante e eu me arrependeria se não fosse. Mesmo em momentos ruins, há sempre pelo menos um motivo para sorrir. Eu tenho o meu e agradeço aos que me ajudaram a fazer essa viagem chata, difícil, realizada por uma prova que foi um desastre, valer a pena.



Termino com um recado para você, palmeirense desesperado e ainda de cabeça quente. Aqui é Palmeiras, meu filho. Todo mundo perde no esporte, mas nós não somos uma Ponte Preta que nunca ganhou nada, muito pelo contrário, e vamos continuar ganhando. Vitórias e derrotas passam, o que fica é a lembrança que você guardou de cada momento inesquecível. Aprenda a guardar as coisas boas também. E aprenda a ser apaixonado, a fazer loucuras, sem que para isso necessite ir às ultimas conseqüências. Se uma paixão não é capaz de te fazer bem e de te divertir até mesmo nas adversidades comuns da vida, não vale a pena estar apaixonado.


2 comentários:

  1. Isso aí Renata, mostrando para muitos que falam que mulher não entende de futebol, não só entendemos como amamos. Além de futebol, você entende de AMOR ao VERDÃO. Seguimos assim, ganhando, perdendo e torcendo, para que vitórias, como de domingo passado contra o Santos, nos façam lembrar, como é bom ser torcedor. Sei que nossas alegrias com este time, serão muitas, assim como as tristezas, mas isso que é AMAR INCONDICIONALMENTE!!! Isso é a Vida!!! Beijos e Abraços a todos!!! Juliane Albuquerque!!!!

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  2. Sempre vale.

    Cada jogo é uma história que eu carregarei até o fim da vida.

    Nunca tive tanta certeza de que o Marcos pegaria um penalti hahahaha.

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